Há três meses, o Projeto UrbanizAÇÃO tem intensificado a mobilização no Complexo do Alemão, especialmente nos pontos de embarque das kombis no pé do morro, para engajar moradores nas rodas de conversa e apresentar sua proposta. Com foco nos determinantes sociais da saúde, a iniciativa busca mapear as condições socioeconômicas e ambientais da Avenida Central, promovendo a participação popular para que soluções urbanísticas atendam às reais necessidades da comunidade.
Organizadas pelo Instituto Raízes em Movimento, as rodas de conversa têm sido fundamentais para ampliar o acesso à informação. A presença de representantes do CRAS, CAPS, Clínica da Família e organizações locais tem possibilitado que moradores conheçam direitos e serviços públicos antes não acessados. Além de impulsionar para que melhorias na infraestrutura urbana estejam de acordo com a realidade local, o projeto fortalece a integração entre equipamentos públicos e a população.
“Os encontros tem sido muito importantes para os moradores e moradoras da Avenida Central. Através deles, levamos nossas ideias e as compartilhamos com outras pessoas. “Assim como eu levei a ideia da realização das aulas de artesanato”, diz dona Francisca, de 80 anos, moradora do CPX desde que nasceu.
Na última sexta-feira (14), o UrbanizAÇÃO recebeu a visita de Richarlls Martins, coordenador-geral do Plano Integrado de Saúde nas Favelas, que acompanhou de perto as ações do Raízes em Movimento e os impactos do projeto nas áreas atendidas, como os becos da Avenida Central. A presença da Fiocruz, representada por Richarlls, evidencia o reconhecimento institucional à iniciativa e reforça a importância do protagonismo das organizações comunitárias em territórios historicamente negligenciados pelo poder público.
“Esse trabalho não é apenas sobre urbanização, mas sobre garantir que a população tenha voz e acesso a direitos básicos que deveriam ser assegurados a todos. O engajamento dos moradores é essencial para que a transformação aconteça de dentro para fora”, destacou Richarlls.
A mobilização segue intensa, e a participação ativa da comunidade continua sendo fundamental para ampliar o impacto do projeto. As rodas de conversa seguem conectando moradores e especialistas na busca por soluções que respeitem as necessidades do território.
Urbanização e Saúde: Reflexos das Ações no Território
A relação entre urbanização e saúde tem sido um dos aspectos mais evidentes durante as visitas ao território. Segundo Richarlls Martins, as áreas beneficiadas por intervenções do PAC apresentam maior acesso a infraestrutura básica, como saneamento, enquanto regiões que ficaram fora do programa enfrentam condições precárias, muitas vezes a poucos metros de distância.
Essa desigualdade territorial, aponta Richarlls, reflete um processo histórico e uma escolha política que perpetuam a vulnerabilidade em determinados espaços. No entanto, um fator determinante identificado foi a atuação coletiva da comunidade, que se mobiliza para transformar sua realidade.
“Tive a oportunidade de visitar áreas completamente reorganizadas por mutirões comunitários. Existe um capital de solidariedade e de construção coletiva no Alemão que busca melhores condições de saúde através da transformação do espaço urbano”, afirmou.
Essa força comunitária não se limita ao Alemão, mas se repete em outras favelas acompanhadas pelo projeto, onde a articulação popular tem sido um motor para melhorias na saúde e no território.
Engajamento Comunitário como Motor de Transformação
A pesquisa conduzida pelo Raízes em Movimento, ainda em fase de finalização, promete ser um marco para compreender a interseção entre saúde, ambiente e direito à cidade.
“O que mais me chamou atenção foi o engajamento comunitário. Jovens e mulheres idosas do Alemão estão ativamente participando do diagnóstico, indo de casa em casa aplicar questionários e promovendo rodas de conversa sobre políticas públicas”, ressaltou Richarlls.
Essa mobilização fortalece a participação social na saúde, tornando as ações do projeto bem-sucedidas mesmo antes da divulgação oficial dos resultados da pesquisa. Agora, a expectativa recai sobre a compilação dos dados e sua transformação em políticas públicas efetivas, garantindo que a urbanização seja um direito acessível a todos os moradores do Alemão.
O projeto é financiado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, e conta com o apoio técnico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), através da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR).







Favela Viva!
Autor

Co-fundador do Instituto Raízes em Movimento, coordenador de comunicação institucional